Balbúrdia PoÉtica 6
Artur Gomes e José Facury
Dois Perdidos Em Seus Poemas Sujos
Dia 17 maio – 20h
Usina4 Casa das Artes
Rua Geraldo de Abreu, 4 - Cabo Frio-RJ
ela era Bruna
em noite de blues rasgado
soltou a voz feito Joplin
num canto desesperado
por ser primeiro de abril
aquele dia marcado
a voz rasgou a garganta
da santa loucura santa
com tanta força no canto
que até hoje me lembro
daquela musa na sala
com tua boca do inferno
beijando meus dentes na fala
Artur Gomes
poema do livro Pátria A(r)mada
Desconcertos – 2022
Para a nossa eterna anarquia
cabocla,
caiçara,
caipira,
seja qual nome queiram dar,
o pai do posto maior
nunca nos serviu bem
Qual mito vamos necessitar?
Um místico apocalíptico
Tipo o Conselheiro
ou um militar genocida
Tipo o Caxias ...?
Se é pra ter nessa politrica um pai,
melhor um que nos prometa o céu
ou um que nos arremeta ao inferno?
José Facury Heluy
Fulinaíma MultiProjetos
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27 de Março Dia Mundial do Teatro
compartilhando texto de Fernando Bonassi que recebi do meu querido amigo Wilson Coêlho
NÓS FAZEMOS TEATRO - Fernando Bonassi
Contra a ignorância, o terror, a falta de educação, a propaganda de promessas, o conforto moral, a ordem acima do progresso, a fome, a falta de dentes, a falta de amores, o obscurantismo... nós fazemos teatro.
Fazemos teatro pra dar sentido às potencialidades, pra ocupar o tempo, pra desatolar o coração, pra provocar instintos, pra fertilizar razões, por uns trocados, por uma boa bisca, porque é fundamental e porque é inútil.
Pra subir na vida, pra cair de quatro, pra se enganar e se conhecer... contra a experiência insatisfatória; contra a natureza, se for o caso, nós fazemos
teatro. Fazemos teatro pra não nos tornarmos ainda pior do que somos.
Pra julgar publicamente os grandes massacres do espírito. Pra viabilizar a esperança humana, essa serpente...
Nós fazemos teatro de manhã, de tarde e de noite. Nós somos uma convivência de emoções, 24 horas distribuindo máscaras e raízes.
Nós fazemos teatro de tudo, o tempo todo, porque acreditamos que a vida pode ser tão expressiva quanto a obra e que devemos ter a chance de concebe-la e forni-la artisticamente. Porque estamos acordados. Porque sonhamos os nossos pesadelos.
Nós fazemos teatro apesar daqueles que, por um motivo que só pode ser estúpido, estejam “contra” o teatro.
Aliás, o que pode ser “contra” algo tão “a favor”? Nós fazemos teatro contra a mediocrização do pensamento; a desigualdade entre os iguais e a igualdade dos diferentes.
Nós fazemos teatro contra os privilégios dos assassinos de gravata, batina, jaqueta, toga, minissaia, vestido longo, farda, camiseta regata ou avental.
Contra a uniformidade, nós fazemos teatro. Nós fazemos teatro contra o mau teatro que querem fazer da realidade.
Nós fazemos teatro pra explicarmo-nos – ainda que mal – e ao mal de todos nós dar algum destino menos infeliz. Nós fazemos teatro pra morrer de rir e pra morrer melhor.
Pra entender o inestimável, se esfregar no infalível, resvalar na nobreza, experimentar as mais sórdidas baixezas, pra brincar de Deus...
Nós fazemos teatro, comendo o pão que os Diabos amassam, os pratos feitos que as produções financiam e os jantares que as permutas permitem. Nós temos fome da fome do teatro. Porque onde houve e há teatro, houve e há civilização.
Fazemos teatro sim, tem gente que não faz e está morrendo, essa é que é a verdade.
Fernando Bonassi (1962) é escritor, roteirista, dramaturgo e cineasta.
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Balbúrdia PoÉTICA 5
Dia 5 Abril – 2025 – 16
música.teatro.poesia
com textos/poemas de:
Ademir Assunção + Artur Gomes + Clarice Lispector + Ferreira Gullar + Paulo Leminski + Torquato Neto + Viviane Mosé
Convidado: poeta e escritor César Augusto de Carvalho
*
em vampiro goytacá
canibal tupiniquim
todas nós somos vampiras
numa página a gente transa
noutra página a gente pira
Irina Serafina
Na Academia Campista de Letras
Parque Dr. Nilo Peçanha – Jardim São Benedito – Campos dos Goytacazes-RJ
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entredentes 3
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Impotência
(Para o homem que dorme do outro lado da rua)
A criança nasce como quem cai,
sem saber do peso das sombras.
Os olhos são dois cacos de vidro,
refletindo um céu que nunca é seu.
A mãe a embala com mãos de vento,
um vento sem pouso, sem nome,
onde ninam os órfãos do tempo.
No primeiro riso, já se esconde a febre.
No primeiro passo, o tropeço se avizinha.
No leite morno da boca, um gosto de ausência.
Brinca com pedras,
porque os homens sempre lhe negam o pão.
Faz do osso um carrinho,
da fome um soldado sem rosto.
E cresce assim, roendo os dias,
correndo entre portas que nunca se abrem,
chamando pelo nome quem nunca responde.
Na esquina, um cão lhe lambe os dedos,
e é ali, no silêncio do bicho,
que aprende o que é ser amado.
Simone Bacelar
Salvador 26/03/2025
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Amanhã 28 de março, 190 anos da cidade de Campos dos Goytacazes, e a partir das 18h na Academia Campista de Letras, encontro para discutirmos a próxima edição do FDP.
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NOMINATA DA MOSTRA VISUAL DE POESIA BRASILEIRA
Cabo Frio (RJ) 2025
Adão Ventura + Ademir Assunção + Al-Chaer + Angel Cabeza + Armando Liguori Junior + Aroldo Pereira + Artur Gomes + Belchior + Caetano Veloso + Carlos Barrozo + Carmem Salazar + Celso de Alencar + César Augusto de Carvalho + Clara Baccarin + Dalila Teles Veras + EuGênio Mallarmè + Federika Lispector + Federico Baudelaire + Ferreira Gullar + Gigi Mocidade + Irina Sefarina + Jorge Ventura + José Facury Heluy + Jidduks + Jurema Barreto + Karlos Chapul + Lau Siqueira + Lira Auxiliadora Lima de Castro + Luis Turiba + Mário Faustino + Mário Quintana + Martinho Santafé + Marcelo Atahualpa + Mônica Braga + Nicolas Behr + Noélia Ribeiro + Oswald de Andrade + Paulo Leminski + Pastor de Andrade + Regina Pouchain + Ricardo Vieira Lima + Rosana Chrispim + Rúbia Querubim + Sady Bianchin + Sílvio Prado + Sebastião Nunes + Sérgio de Castro Pinto + Simone Bacelar + Silvana Guimarães + Tanussi Cardoso + Torquato Neto + Tchello d’Barros + Wélcio de Toledo + Yara Fers + Zhô Bertholini + Viviane Mosé
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Balbúrdia PoÉtica 5
Acabo de ler todo o roteiro da Balbúrdia PoÉtica 5 que me foi
enviado por Rúbia Querubim. Não pensem um Sarau, pensem uma Oficina de Poesia,
como uma proposta de criação e interpretação, num roteiro com textos/poemas de
Admir Assunção, Artur Gomes, Clarice Lispector, Paulo Leminski, Torquato Neto,
Ferreira Gullar e Viviane Mosé.
Da forma que consigo entender a Balbúrdia PoÉtica 5 é um ensaio para a
montagem do espetáculo poético/teatral : “O sax no som da palavra dentro do
poema”, onde o músico Dalton Freire vai criando intervenções sonoras dentro de
algumas palavras quando faladas ou cantadas por algum ator/atriz do elenco. A
mistura de linguagens e temáticas, o foco no desbravamento do tempo em que
vivemos, pode nos remeter ao Mário Faustino, em “O Homem E Sua Hora”. Mas podem
nos remeter também a fatos recentes como os atentados do 8 de janeiro de 2023, ou
outros durante a pandemia que seifou 700 mil vidas de brasileiros. Mas o tempo
também é um ser erótico nos poemas de Viviane Mosé quando afirma que: “o tempo anda passando a mão em mim/acho
que o tempo anda passando/o tempo anda/ e por falar em sexo quem anda me
comendo é o tempo.”
Federika Lispector
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O tempo vai passando e sem poemas
eu fico sem problemas
até que do entre os peitos começam abismos
e de cada uma das mãos uma saudade.
Dos pés um espaço vazio
Estou começando a estar aprisionada
de poemas
e poemas gostam de vibrações.
Não de emoções
que são sempre excessivas e vazias,
mas vibrações
que é também o estado das emoções
antes de terem nome
e conceito.
Preciso de palavras, eu penso.
Preciso deixar falar
O rio de letras em meu corpo.
Ai tudo se completa em etapas.
Tudo se encaixa e retrai. Tudo amor.
Viviane Mosé
do livro desato
2006
O COISA RUIM
me querem manso
cordeiro
imaculado
sangrado
no festim dos canibais
me querem escravo
ordeiro
serviçal
salário apertado no bolso
cego mudo e boçal
me querem rato
acuado
rabo entre as pernas
medroso
um verme, pegajoso
mas eu sou osso
duro de roer
caroço
faca no pescoço
maremoto, tufão, furacão
mas eu sou cão
lato
mordo
arreganho os dentes
incito a revolta dos deuses
toco fogo na cidade
qual nero
devasto o lero lero
entro em campo
desempato
eu sou o que sangra
um poeta nato
Ademir Assunção
(do livro Zona Branca, 2001)
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Balbúrdia PoÉtica
moinhos de vento
por tanto tempo
por tanta escrita
por tanta carta
sem respostas
nossos moinhos de vento
muito além da mesa posta
ainda trago em mim
tuas mãos
tuas coxas
tuas costas
a tua língua
entre os dentes
em ex-camas que não tivemos
em madrugadas expostas
e tua fome era tanta
em tudo o que não fizemos
nesse teu corpo de santa
naquele tempo de bestas
na caretice de bostas
Artur Gomes
Do livro O Poeta Enquanto Coisa
2020
*
Eu sonho poema
Tem quem sonha
Em preto e branco
Tem quem sonha
Videoclipe
Tem quem sonha
Filme mudo
Tem quem sonha
Tela de cinema
Eu sonho poema
Armando Liguori Junior
do livro A Poesia Está Em Tudo
2020
*
Calor dentro
Calor fora
Quarenta graus
à sombra
Assombra
Tua mão quente
sobre o seio meu
hora ígnea
ante o olhar
de Prometeu
Noélia Ribeiro
do livro Espivitada
2017
Balbúrdia PoÉtica 5
Dia 5 – Abril – 2025 – 16h
Campos VeraCidade
música teatro poesia
Academia Campista de Letras
Parque Dr. Nilo Peçanha
Jardim São Benedito
Campos dos Goytacazes-RJ
textos/poemas de:
Ademir Assunção + Paulo Leminski + Ferreira Gullar + Artur Gomes + Torquato Neto + Viviane Mosé
*
Artur Gomes
Jogo de Dadaísta
não sou iluminista/nem pretender
eu quero o cravo e a rosa
cumer o verso e a prosa
devorar a lírica a métrica
a carne da musa
seja branca/negra
amar/ela vermelha verde
ou cafusa
eu sou do mato curupira carrapato
eu sou da febre sou dos ossos
sou da lira do delírio
e virgílio é o meu sócio
pernambuco amaralina
vida leve ou sempre/vida severina
sendo mulher ou só menina
que sendo santa prostituta
ou cafetina
devorar é minha sina
profanar é o meu negócio
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https://www.youtube.com/watch?v=szABRGqMqH8
Mostra Visual Poesia Brasileira
Exposição retrospectiva
Múltiplas PoÉticas
17 Maio – 20h – na programação da Balbúrdia Poética 6 – em
Cabo Frio
com a Poesia de:
Tanussi Cardoso + Lau Siqueira + Wélcio de Toledo + Sérgio de
Castro Pinto + Tchello d´Barros + Jidduks + Ademir Assunção + Torquato Neto +
Paulo Leminski + Noélia Ribeiro + Aroldo Pereira + Jorge Ventura + Ricardo
Vieria Lima + Angel Cabeça + Luis Turiba + César Augusto de Carvalho + José
Facury + Artur Gomes
muito mais – aguardem
mais informações
- tem chá tia
- com anis
- sem anis tia
Lira Auxiliadora Lima de Castro
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Balbúrdia PoÉtica
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Olhos de olhar pra dentro
Tinha uns olhos que não eram olhos,
eram tardes de chuva miúda
dissolvendo a cidade em espelhos,
estradas sem pressa,
trens que voltam e nunca chegam.
Os olhos dela sabiam de tudo,
das mortes pequenas nos quintais de infância,
dos tremores que moram no fundo do peito,
da poeira que dança no sol das manhãs.
Sabiam até quando ele mentia.
Olhos que pesavam o silêncio,
que liam cartas não escritas,
que ficavam parados, tão quietos,
mas sabiam voar.
E ele, que só tinha palavras tortas,
quis aprender com os olhos dela
a ver as coisas que não se dizem.
Simone Bacelar
Salvador (não lembro a data
Balbúrdia PoÉTICA 5
Dia 5 Abril 2025 – 16
música teatro poesia
Academia Campista de Letras
Parque Dr Nilo Peçanha – Jardim São Benedito – Campos dos
Goytacazes-RJ
Pois bem, o dia está chegando e eu estava tenso, preocupado
com uma resposta que aguardava, pois se ela não viesse a tempo, ou fosse
negativa, o roteiro para a Balbúrdia precisaria sofrer alterações quase aos 45
minutos do segundo tempo. Corria esse risco. Mas eis que a reposta positiva me
chegou:
Viviane Mosé me autorizou a utilizar no roteiro poemas de sua
autoria. Conheci Viviane e sua poesia, em 2002, quando ela venceu o IV
FestCampos de Poesia Falada com o poema; Receita Para Lavar Palavra Suja. Em
2002 ainda a trouxe a Campos para o projeto Terças Poéticas que era realizado
pelo SESC Campos. Feliz Dia
Ale´m dos poemas de Viviane Mosé no roteiro da Balbúrdia
PoÉtica 5 – tem poemas minha autoria mais:
Ferreira Gullar, Paulo Leminski e Torquato
neto.
Artur Gomes
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*
No epicentro do quarto,
o ninho a acasalar
dois belos pássaros alados.
Mapeiam-se os corpos nus.
Cada qual é uma ilha.
Ou faz-se de.
Remos para alcançar.
Ou pontes.
Do litoral, areia branca.
Tão branca quanto o dorso.
O peito. Os dentes.
Não a alma, essa é multicor,
prismática cachoeira
quando o sol brilha de frente.
Orvalho em todos os poros
alumia cada gota, cada grão e cada fio.
Costura feita ao contrário
arremata o arrepio.
Passo a passo,
letra a letra, nota traz nota,
o caminho e a palavra,
se completam musicalmente:
montanhas vales lagunas
espelho
coqueiro que dá banana
limoeiro que dá caju.
Amor
- um coro de querubins.
ÁLVARO GOULART
*
dança do pensamento
na escrivaninha
um livro aberto
um cinzeiro
os olhos na página
o pensamento, na mulher
uma formiga no cinzeiro
o pensamento,
na mulher e no amante
os olhos, na formiga
os dedos tamborilam
o espaço diminui
a formiga recua
os dedos avançam
a mulher, o amante
os dedos se fecham
corpos se enlaçam
os dedos se comprimem
um estalo
ele limpa os dedos
volta à leitura
Cesar Augusto de Carvalho
LEVANTE
Não desprezem
as que se doam,
Não
desprezem
as que se
rasgam,
que se quebram em
pedaços
por vulgares paixões vãs...
Pois delas lhes subirão
além das tranças das memórias
iras fugidias de redomas e bordéis
que imersas no vazio dos abandonos
se levantarão do pouco que lhes move
Sob o olor da essência da flor
que lhes renovará como mulher
José Facury Heluy
Lira Auxiliadora Lima de Castro
Camões/Lampião
(Sérgio de Castro Pinto)
1.
camões ao habitar-se
no olho cego
sentia-se íntimo,
mais interno
que o habitar-se
no olho aberto.
2.
lampião ao habitar-se
nos dois olhos
a eles dividia:
o olho aberto matava
e o outro se arrependia.
3.
camões ao habitar-se
no olho cego
polia as palavras
e usava-as absorto
como se apalpasse
e possuísse o próprio corpo.
4.
lampião ao habitar-se
no olho cego
chorava os mortos
do seu interno,
mas o olho aberto
era casto
e via no matar
um gesto beato.
5.
camões ao habitar-se
no olho aberto
via-se todo ao inverso,
(pelo lado de fora),
mas rápido se devolvia
e fechava o olho aberto
pra ser total a miopia.
6.
lampião ao habitar-se
no olho murcho
via o olho aberto
estrábico e rústico
e compreendia
o olho aberto
mais murcho
que o olho cego.
7.
camões ao habitar-se
no olho murcho
via o mundo claro
dentro do escuro
e o olho aberto
era inútil
ao habitar-se
no olho murcho.
8.
lampião
atrás dos óculos
sentia-se acrescido, somado
e era mais lampião
naqueles óculos de aro.
9.
os óculos
lhes eram binóculos
íntimos sobre a miopia
e quando os óculos tirava
lampião se decrescia:
o olho cego somava
e o aberto diminuía.
10.
camões molhava a pena
como se no tinteiro
molhasse o olho cego
e tateando, cuidadoso
saía do seu interno.
11.
(no tinteiro as palavras
em forma líquida
juntam-se uma a uma
à retina, à pupila.)
12.
camões
escrevia com o olho cego
por senti-lo mais seu
que o olho aberto
e por poder o olho cego
infiltrar-se, ir mais dentro
e externar o seu inverso.
Sérgio de Castro Pinto
obs.: poema vencedor do II FestCampos de Poesia Falada - 2000
- projeto de poesia criado em 1999 por Artur Gomes na Fundação Cultural
Jornalista Oswaldo Lima.
Caverna
me tranquei na caverna de platão
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
não vi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta e o facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei São Jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com com a pele que me cobre
Ademir Assunção
do livro Risca Faca
2021
*
Barulho
palavra
por palavra
minha úlcera
de verbos
tece aos poucos
a membrana
do silêncio
Lau Siqueira
do livro
o inventário do pêssego
2020
Momento
no espaço silencioso
do ar
o pássaro me acolhe
em seu voo
simétrico
olha em meu olhar
e me devolve
a manhã renovada
*
Natureza-morta com maçãs e laranjas (Cézanne)
: eis a paisagem
das frutas
: eis o gosto absurdo
do mel na retina
: eis o silêncio
pendurado na parede
: eis a vida
suspensa por um fio
*
O poema dentro de ti
De modo geral,
acho que devemos ler apenas
os livros que nos cortam e nos ferroam.
Kafka
O poema só serve para acender o fogo intenso do frio
que te habita.
Para te golpear como a dor do fim do amor que amas,
ou como raio a quebrar o lago que te espelha a face.
O poema só serve para deixares de bordar estrelas
e cumprires teu destino humano,
pois cabe somente a ti o teu enredo.
O poema não está nem aí para tua felicidade ou suicídio.
O poema só serve para que saias de ti, te leias e te encontres.
*
Sobre sombra e luz
para a atriz Silvia Buarque
Os olhos tristes da moça
são onça ferida mirando o Sol da dor.
Que o amor, moça, é flecha lançada ao vento.
Chão que se quebra ao Tempo.
Barco em rio seco. Adeus de pavio lento.
O amor é rosto que olha o lago sem se ver.
Fantasma de si mesmo — vulto.
É o que se dá sem se ter.
Faca a cortar em sua inutilidade de aço.
Parto que não nasce; exílio do outro e de si.
O amor, moça, é a eterna construção da pedra em flor.
É a invenção colorida do nada.
É feito cinema, moça, ilude e acalma.
Depois, é só a vida com suas águas rasas.
*
Visões
Quando criança,
o Sol queimava feito uma bola amarela
e as nuvens choravam água dentro delas.
Tudo era imensamente grande,
assim como o amor
fosse somente um rinoceronte
lambendo as lágrimas dos inocentes.
Quando criança,
o mundo era só um risco na paisagem.
A vida ainda não era dançar
diante do abismo da viagem
e a poesia não era o que nascia do espanto,
mas o encanto dos olhos do que o menino via.
Quando criança,
a rua era um país a explorar meus desejos
e o sexo, só uma diversão de dedos.
Eu era eterno — eu era para sempre —
tudo era para sempre.
Meus mortos eram para sempre.
Hoje, tudo é real e rói.
Só a criança teima em existir,
mas ela dói.
Tanussi Cardoso
*
Tanussi Cardoso
Como Se Fosse Adeus
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Toga
será deus
um ser
de capa preta?
um bosta de toga
borra botas
de despachos e
amarrações
malfeitas
serpente de duas cabeças
ase fartas com migalhas
deixadas pelo capeta?
Wélcio De Toledo
do livro
tudo que não cabe no poema
2019
Balbúrdia PoÉtica 5
Dia 5 Abril 2025 16h
na Academia Campista de Letras
Parque Dr. Nilo Peçanha
Jardim São Benedito - Campos dos Goytacazes-RJ
nem ingênuo nem inocente
Marielle Presente
hoje já sei o que vai ser
ensaio com o elenco
até um novo dia amanhecer
Fulinaimagem
1
por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato
por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos
2
o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os espinhos da rosa de Noel
do livro: Juras Secretas –
Litteralux - 2018
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Balbúrdia PoÉTICA 6
17 Maio – 2025 – 20h
Usina4 Casa das Artes
Rua Geraldo de Abreu, 4
Cabo Frio-RJ
Mostra Visual : Poesia Brasileira
42 anos vestindo poesia brasil afora
Arte do chá
ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo
ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
Paulo Leminski
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mais poesia de: Artur Gomes + José Facury + Rúbia Querubim + Lady Gumes + Federika Lispector + Irina Severina + Martinho Santafé + Artur Kabrunco + Ferreira Gullar + Mônica Braga + Marcelo Atahualpa + EuGênio Mallarmè + César Augusto de Carvalho + Celso de Alencar + Ferreira Gullar + Torquato neto +Simone Bacelar + Federico Baudelaire