OU
LEOPOLDINA REVISITED
(2014-2016)
NOTA EXPLICATIVA
Em 1920, o adolescente português Adolfo Correia da Rocha, natural de São Martinho de Anta (Trás-os-Montes), desembarca do paquete Alianza no porto do Rio de Janeiro, onde o aguarda um tio paterno, proprietário de terras nos arredores da cidade de Leopoldina, Zona da Mata do estado de Minas Gerais. Ao longo de quatro anos, o jovem trasmontano será “uma simples máquina de trabalho” na fazenda do tio, até que este resolve matriculá-lo no Ginásio Leopoldinense, ocasião em que descobre a poesia e o cinema. A bordo do navio Andes, o tio retorna a Portugal em 1925 junto com a família, incluindo o sobrinho. Como paga pelos serviços prestados em seus cafezais, decide custear os estudos de Adolfo na Universidade de Coimbra. Aos 27 anos, o médico Adolfo Correia da Rocha adota o pseudônimo de Miguel Torga. Com o prenome homenageia dois escritores espanhóis de sua predileção – Cervantes e Unamuno –, enquanto no sobrenome refere uma espécie de arbusto típica das terras trasmontanas. Em meados de 1954, o poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo Miguel Torga chega ao Brasil para participar do Congresso Internacional de Escritores em São Paulo. E aproveita a estadia para uma viagem sentimental a Leopoldina. A partir das lembranças das tantas estações da via-sacra de sua adolescência no leste das Gerais, Torga escreve os quatorze poemas aqui coligidos. Não se sabe ao certo se enviados posteriormente, esquecidos ou deixados com Dona Micas quando da passagem do escritor por Recreio, tais textos chegaram a minhas mãos graças aos Fiorese que, residindo nesta cidade, intercederam junto aos herdeiros daquela senhora. Fiz apenas acrescentar-lhes o título sob o qual vão publicados.
Esta a ficção que arrima os poemas a seguir.
Fernando Fiorese
Às vésperas do 110º aniversário de Miguel Torga
*
PRIMEIRA ESTAÇÃO
Antes atirar-me às águas do Doiro
E fazer da morte um repto ao empíreo
Que cumprir um fado do meu agoiro
E os dias trair entre os cotos de círios.
Antes sofrer do Pai ir as do cabo
E as vergonhas que sou lançar-me às fuças,
Pois, ele lá sabe, não menoscabo
O chão e senha que esse chão rebuça.
Antes tornar-me num desses escravos
De agora e de sempre, sem fazer caso
Da pátria onde hei-de amargar o travo
De mudar-me em homem antes do prazo.
Antes o Brasil, nossa esfinge inteira,
Que essa terra assim maninha de frutos
E sonhos. Portugal que me não queira
A atravessar o Atlântico de luto.
SEGUNDA ESTAÇÃO
São horas de amalar a trouxa...
Camisas, ceroulas e colchas,
E ir-me ao baptismo sem padrinhos...
Cinco toalhas, fumeiro e vinho...
Abre-se um abismo em mim
De lés a lés - mas digo
sim.
Foi o fado que me agarrou
P`lo cu das calças e atirou
Contra o chão duro do presente.
Quanto ao que me passa em frente,
Um mar de febre e aflição,
Em som de guerra, digo não.
Já tanto ficou para trás...
Mirandela, réguas, Vinhais...
Já tanto se me perdeu...
Alijó, Sabrosa, Viseu...
Portugal a fugir de mim
E eu dele – porque digo sim.
Aqui trago o mais que me resta,
Nesta mala de mão modesta,
Meu madeiro, meu Portugal,
Há guardar o bem que há no mal
E este migalho do Marão,
Que sou eu – e a quem digo não.
Está apenas a começar
A dura viagem de acabar,
E às tantas desfaz-se a infância
E fica apenas esta ânsia
De partir para longe de mim
E do chão onde digo sim.
Só não me aparto desta mala,
A cruz que me salva e sinala
O início da via dolorosa
Que todo imigrante desposa
Por ser bicho de má nação,
De longada entre o sim e o não.
desde quando
meu beija-flor
bebeu do mel
dos teus olhos
meus olhos
sonharam flor
de lis
de lírios
em meus delírios
nunca mais
sofri as dores que não tive
e as loucuras do amor
Artur Gomes Fulinaíma
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Balbúrdia PoÉtica

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