quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

VIAGEM DE ACABAR OU LEOPOLDINA REVISITED (2014-2016)

 

VIAGEM DE ACABAR

OU

LEOPOLDINA REVISITED

(2014-2016)

 

NOTA EXPLICATIVA

Em 1920, o adolescente português Adolfo Correia da Rocha, natural de São Martinho de Anta (Trás-os-Montes), desembarca do paquete Alianza no porto do Rio de Janeiro, onde o aguarda um tio paterno, proprietário de terras nos arredores da cidade de Leopoldina, Zona da Mata do estado de Minas Gerais. Ao longo de quatro anos, o jovem trasmontano será “uma simples máquina de trabalho” na fazenda do tio, até que este resolve matriculá-lo no Ginásio Leopoldinense, ocasião em que descobre a poesia e o cinema. A bordo do navio Andes, o tio retorna a Portugal em 1925 junto com a família, incluindo o sobrinho. Como paga pelos serviços prestados em seus cafezais, decide custear os estudos de Adolfo na Universidade de Coimbra. Aos 27 anos, o médico Adolfo Correia da Rocha adota o pseudônimo de Miguel Torga. Com o prenome homenageia dois escritores espanhóis de sua predileção – Cervantes e Unamuno –, enquanto no sobrenome refere uma espécie de arbusto típica das terras trasmontanas. Em meados de 1954, o poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo Miguel Torga chega ao Brasil para participar do Congresso Internacional de Escritores em São Paulo. E aproveita a estadia para uma viagem sentimental a Leopoldina. A partir das lembranças das tantas estações da via-sacra de sua adolescência no leste das Gerais, Torga escreve os quatorze poemas aqui coligidos. Não se sabe ao certo se enviados posteriormente, esquecidos ou deixados com Dona Micas quando da passagem do escritor por Recreio, tais textos chegaram a minhas mãos graças aos Fiorese que, residindo nesta cidade, intercederam junto aos herdeiros daquela senhora. Fiz apenas acrescentar-lhes o título sob o qual vão publicados.

Esta a ficção que arrima os poemas a seguir.

Fernando Fiorese

Às vésperas do 110º aniversário de Miguel Torga

* 

PRIMEIRA ESTAÇÃO

Antes atirar-me às águas do Doiro

E fazer da morte um repto ao empíreo

Que cumprir um fado do meu agoiro

E os dias trair entre os cotos de círios.

 

Antes sofrer do Pai ir as do cabo

E as vergonhas que sou lançar-me às fuças,

Pois, ele lá sabe, não menoscabo

O chão e senha que esse chão rebuça.

 

Antes tornar-me num desses escravos

De agora e de sempre, sem fazer caso

Da pátria onde hei-de amargar o travo

De mudar-me em homem antes do prazo.

 

Antes o Brasil, nossa esfinge inteira,

Que essa terra assim maninha de frutos

E sonhos. Portugal que me não queira

A atravessar o Atlântico de luto.


SEGUNDA ESTAÇÃO

 

São horas de amalar a trouxa...

Camisas, ceroulas e colchas,

E ir-me ao baptismo sem padrinhos...

Cinco toalhas, fumeiro e vinho...

Abre-se um abismo em mim

De lés a lés -  mas digo sim.

 

Foi o fado que me agarrou

P`lo cu das calças e atirou

Contra o chão duro do presente.

Quanto ao que me passa em frente,

Um mar de febre e aflição,

Em som de guerra, digo não.

 

Já tanto ficou para trás...

Mirandela, réguas, Vinhais...

Já tanto se me perdeu...

Alijó, Sabrosa, Viseu...

Portugal a fugir de mim

E eu dele – porque digo sim.

 

Aqui trago o mais que me resta,

Nesta mala de mão modesta,

Meu madeiro, meu Portugal,

Há guardar o bem que há no mal

E este migalho do Marão,

Que sou eu – e a quem digo não.

 

Está apenas a começar

A dura viagem de acabar,

E às tantas desfaz-se a infância

E fica apenas esta ânsia

De partir para longe de mim

E do chão onde digo sim.

 

Só não me aparto desta mala,

A cruz que me salva e sinala

O início da via dolorosa

Que todo imigrante desposa

Por ser bicho de má nação,

De longada entre o sim e o não.

des(ilusão)

 

desde quando

meu beija-flor

bebeu do mel

dos teus olhos

meus olhos

sonharam flor

de lis

de lírios

em meus delírios

nunca mais

sofri as dores que não tive

       e as loucuras do amor

 

Artur Gomes Fulinaíma

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Balbúrdia PoÉtica

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