meus caninos
já foram místicos
simbolistas
sócio políticos
sensuais eróticos
mordendo alguma história
agora estão famintos
cravados na memória
Artur Gomes
Poema do livro
O Homem Com A Flor Na Boca
(2023)
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POEMA 10
O Homem Com A Flor Na Boca (2023)
meus caninos
já foram místicos
simbolistas
sócio políticos
sensuais eróticos
mordendo alguma história
agora estão famintos
cravados na memória
Rey, ele botou os dentes na mesa. Depois da carne da palavra no microfone, agora são os caninos.
Depois do POETA no peito, agora é o HOMEM COM A FLOR NA BOCA.A biografia da mordida: Místicos - 1983, Boi-Pintadinho mordendo ditadura com encantamento. Dente de reza.
Simbolistas - Drummundo na pele/pedra. Dente que rói o símbolo até achar o osso.
Sócio políticos - RELATÓRIO 1987, arrombando porão. Dente que rasga censura.
Sensuais eróticos - Matéria amorosa. Dente que morde Rey, Clarice, Edson Luís, Torquato. Morder é amar com fúria. Mordendo alguma história
53 anos mordendo. Mordendo o Brasil pra não engolir calado. Mordendo túnel, sonda, ultrassom. Mordendo a morte e cuspindo vive no que resta. Agora estão famintos
cravados na memória
A fome mudou de endereço. Não morde mais o presente. Morde o passado. Canino não mastiga futuro — ele guarda. Ele crava. Memória é carne dura. Precisa dente afiado pra não esquecer. E a capa fecha o feitiço:
Homem de chapéu, cavanhaque, flor vermelha na boca. É bardo, é maldito, é Verlaine, Baudelaire, Rimbaud — os citados no texto. É Gregório de Mattos Boca do Inferno. É o poeta que não declama: deglute. Cesar Augusto de Carvalho escreveu: "não é para ser lido, é para ser deglutido".
Krishnamurti Góes dos Anjos: "segue sua árdua caminhada, agora com o poderoso colírio da maturidade que lhe chega". Colírio pra ver. Canino pra cravar. Flor pra dizer. A flor na boca é a rosa do PoHermeto. É o Lírio da Estação 353. É o que sobra quando a mordida passa. O Artur mordeu o século, engoliu 53 anos de Brasil, e devolveu flor. Do Jura Secreta 26 em 2018 pro Poema 10 em 2023:
Em 2018 ele jurava: eu sou Drummundo.
Em 2023 ele mostra os dentes: estou faminto de memória. Entre um e outro teve o túnel. Teve a sonda. Teve o vive no que resta.
Por isso os caninos agora cravam na memória: porque o corpo lembrou que é mortal. Mas o verso não. "na carne da palavra nasce o poema entre ossos"
"meus caninos cravados na memória" Do osso pro dente. Da palavra pra mordida.
Artur Gomes é um carnívoro de tempo. Salve a Penalux. Salve a flor.
Salve o homem que tem canino místico e continua mordendo história aos 70 e poucos. Faminto e florido.
Irina Severina Serafina
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"na carne da palavra
nasce o poema
entre ossos"
Aí tá o raio-X do Artur, Rey. Do lírio-da-paz molhado
pro osso exposto no microfone.
Da folha verde pro verbo encarnado. POETA escrito no peito.
Não é camiseta. É diagnóstico. É atestado. É laudo médico de quem tem poesia na
medula. Eu sou Drummundo
e me cofundo na matéria amorosa Matéria amorosa virou carne.
Virou músculo, nervo, osso.
Artur não declama. Ele sangra. Ele
sua. Ele range os dentes e o poema nasce ali, no atrito entre a palavra e a
vértebra. Até na pele/pedra
quando me invoco Invocou. Tá invocado no palco, punho cerrado,
veia no pescoço.
Pele que sentiu sonda, pedra que segurou porão, ultrassom,
túnel. Agora é pele que canta. Pedra que grita. E me desbundo baratino
e então provoco
um barafundo Cabralino.
Barafundo Cabralino é isso: precisão e fúria.
Tesoura cortando sílaba no ar. Engenharia da voz. O poema não
sai da boca, sai do osso. Nasce entre costela e diafragma. E vou pro fundo
do mais fundo
o mais profundo
mineral Guimarães Rosa. O fundo agora é o pulmão. É o fôlego. É o
mineral que vira som.
Rosa no microfone. Sertão amplificado. Vive no que resta gritado
no escuro. Do Lírio-PoHermeto na Estação 353 pro POETA no palco.
Do presente do Joilson Bessa pro presente que ele dá
pra gente: a carne aberta em verso. Fulinaíma MULTIPROJETOS + KINO3
Porque pra registrar esse nascimento entre ossos precisa
cinema. Precisa audiovisual. Precisa luz cortando o preto pra mostrar o branco
do olho, o suor, o dente, a fé. "na carne da palavra nasce o poema
entre ossos"
É a Jura Secreta 26 em 3D.
É o currículo de 53 anos comprimido num frame.
É o Drummundo, o Cabralino, o Guimarães Rosa
todos dentro de um corpo só, cantando. O absurdo é poema nascer de osso.
O necessário é ter peito de POETA pra parir. Salve Artur
Gomes.
Vivo. Vidente. Vertebrado em verso.
Irina Severiana Serafina
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