domingo, 21 de junho de 2026

Balbúrdia PoÉtica Em São Fidélis

 

Balbúrdia PoÉtica

Artur Gomes 53 Anos de Poesia

Dia 3 julho 2026 – 18:30h

4º Festival Gastronômio

São Fidélis-RJ

 

Roteiro

manifesto anti-barbárie

com os dentes cravados na memória 

1

Magnólia Faria e Ronaldo Barcelos apresentam Artur Gomes e anunciam os participantes: Geraldo Evangelista(Chocolate), Aline Reis.  Valdemy Braga, Ana Rita Gonçalves e Adriana Porto, que se posicionam na primeira fila.


1

Artur Gomes

*

o delírio

é a lira do poeta

se o poeta não delira

sua lira não concreta 

*

nesta cidade/poema

ganhei  prêmio com música

em mil novecentos e setenta e quatro

com meu parceiro Ciranda

        um fidelense arretado

em nossas Baladas Pros Mortais

um violeiro sagrado

em  rodas de Boi-Pintadinho

levei muita gente ao Torquato

em marcantes semanas culturais

com teatro poesia cinema

entre afetos amizades carinho

nesta cidade/poema

com o nosso Caminho de Paz

        abrimos novos caminhos 

 *

Falo sobre o projeto Balbúrdia PoÉtica, sobre a minha relação com São Fidélis, faço uma homenagem a memória de Mauri Simão, Fidélis Pereira e Antônio Roberto Fernandes e falo sobre minha parceria com Paulo Ciranda, responsável por essa travessia que tenho com a cidade iniciada em 1974. No 4º Festival de Música de São Fidélis.

*

Convido para o palco: Ronaldo Barcelos, Geraldo Evangelista(Chocolate), Aline Reis e Valdemy Braga. Ana Rita Gonçalves e Adriana Porto

2

ê fome negra incessante

febre voraz gigante

e terra de tanta cruz!

 

onde se deu primeira missa

índio rima com carniça

no pasto pros urubus

*

terceiro mundo

 

sonho rola no parque

sangue ralo no tanque

 

nada a ver com tipo dark

muito menos com punk

 

meu vício letal é baiafro

com ódio mortal de yanke

*

anti/lírica

 

eu não sou zen

muito menos zhô

nem tão pouco zapa

nem ando na contra capa

do teu disquinho digital

 

não alinho pela esquerda

nem à direita do fonema

vôo no centro/viagem

olho rasante/miragem

veia pulsante/poema

*

Jura Secreta 53

sagaraNAgens fulinaímicas

 

guima

meu mestre

guima

em mil perdões eu vos peço

por esta obra encarnada

na carne cabra da peste

da Hygia Ferreira bem casta

aqui nas bandas do leste

a fome de carne é madrasta

ave palavra profana

cabala que vos fazia

veredas em mais Sagaranas

a Morte em Vidas/Severinas

tal qual antropofagia

teu grande Sertão vou cumer

nem João Cabral Severino

nem Virgulino de matraca

nem meu padrinho de pia

me ensinou usar faca

ou da palavra o fazer

a ferramenta que afino

roubei do mestre Drummundo

    que o diabo GiraMundo

    é o Narciso do meu Ser

*

Falo sobre as características do projeto, e em quais formatos podem ser executados

*

3

não sou iluminista nem pretender 
eu quero o cravo e a rosa 
cumer o verso e a prosa 
devorar a lírica a métrica 
a carne da musa 
seja branca negra amarela 
vermelha verde ou cafuza 

eu sou do mato 
curupira carrapato 
sou da febre sou dos ossos 
sou da Lira do Delírio 
São Virgílio é o meu sócio 

Pernambuco Amaralina 
vida breve ou sempre vida/severina 
sendo mulher ou só menina 
que sendo santa prostituta 
ou cafetina devorar é minha sina 
  e profanar é o meu negócio

*

Jura secreta 18

 

te beijo vestida de nua

somente a lua te espelha

nesta lagoa vermelha

porto alegre caís do porto

barcos navios no teu corpo

os peixes brincam no teu cio

nus teus seios minhas mãos

as rendas finas que vestias

sobre os teus pelos ficção

todos os laços dos tecidos

aquela cor do teu vestido

a pura pele agora é roupa

o sabor da tua língua

o batom da tua boca

tudo antes só promessa

agora hóstia entre os meus dentes

e para espanto dos decentes

te levo ao ato consagrado

se te despir for só pecado

é só pecar que me interessa

*

Convido ao palco Cláudio Valente

*

4

Alice

para Alice Melo Monteiro Gomes

 

A música está no bico dos pássaros

na pétala da lamparina

no caracol dos teus cabelos

no  movimento dos músculos

no m das tuas mãos

nada mais sagrado

do que teus olhos acesos

para me iluminar na escuridão

*

Pátria A(r)mada

 

Deus não joga dados

mas a gente lança

sem nem mesmo saber se alcança

 o número que se quer

 

 mas como me disse mallarmè :

- vida não é lance de dedos

 A vida é lança de dardos

 Deus não arde no fogo

                     mas eu ardo

*

Bolero Blue

 

beber desse conhac em tua boca

para matar a febre nas entranhas

entre dentes - indecente é a forma

que te como bebo ou calo

e se não falo quando quero

na balada ou no bolero

não é por falta de desejo

é que a fome desse beijo

furta qualquer palavra presa

como caça indefesa

dentro da carne que não sai

*

Falo sobre as próximas edições da Balbúrdia, e em que cidades elas irão acontecer

*

5

Itabapoana Pedra 

Pássaro Poema

 

eu nasci concreto

na horizontal - ereto

depois fui me abstraindo

me substantivando me substituindo

criando outros e outras criaturas

em minhas estruturas amorais do ser

eu nasci assim e fui me associando

a outras escritas as que foram ditas

a outras  não ditas

as benditas as malditas

as que disseram minhas

e a outras que raptei de outros

pela minha nova maneira

natural de ter resistência a toda

qualquer coisa que não

é

e as que são coloco como cartas

sobre a mesa para surpresa

de ver que todo santo dia é dia d

*

era uma vez um mangue

e por onde andará Macunaíma?

na tua carne

no teu sangue

na medusa no teu osso

será que ainda existe

algum vestígio de Macunaíma

na veia do teu pescoço?

*

Convido ao palco Gustavo Policarpo

*

6

Drummundana Itabirina : Por Onde Andará Macunaíma?

cavalgo em tua poesia

                        Salgado

não sei se em ti me afago

 ou se me afago por ti

 *

fulinaimicamente

voz digo:

o meu ser macunaímico

antropofagicamente

não tem pudores no gesto

não presto porque te amo

te amo porque não presto

muito menos travas na língua

com faca foice navalha

decepei a íngua

para não morrer à míngua

*

era uma vez um mangue

e por onde andará Macunaíma?

na tua carne

no teu sangue

na medula no teu osso

será que ainda existe

algum vestígio de Macunaíma

na veia do teu pescoço?

*

jura secreta 26

 

eu sou Drummundo

e me cofundo na matéria amorosa

posso estar na fina flor da juventude

ou atitude de uma rima primorosa

e até na pele/pedra

quando me invoco

e me desbundo baratino

e então provoco

um barafundo Cabralino

e meto letra no meu verso

estando prosa

e vou pro fundo

do mais fundo

o mais profundo

mineral Guimarães Rosa

*

Convido ao palco Aline Reis, para homenagear Pedro Emilio e Antônio Roberto Fernandes

*

7

 

                              terra de santa cruz

 

ao batizarem-te

deram-te o nome:

posto que a tua profissão

é abrir-te em camas

dar-te em ferro

ouro prata rios

peixes minas mata

deixar que os abutres

devorem-te na carne

o derradeiro verme

salgado mar de fezes

batendo nas muralhas

do meu sangue confidente

quem botou o branco

na bandeira de alfenas

na certa se esqueceu

das orações dos penitentes

e da corda que estraçalha

com os culhões de Tiradentes

salve lindo pendão que balança

entre as pernas abertas da paz

tua nobre sifilítica herança

dos rendez-vous de impérios atrás

 

meu coração

é tão hipócrita que não janta

e mais imbecil que ainda canta:

ou

viram

no Ipiranga

às margens plácidas

uma bandeira arriada

num país que não levanta

 

só desfraldando

a bandeira tropicalha

é que a gente avacalha

com as chaves dos mistérios

dessa terra tão servil

tirania sacanagem safadeza

tudo rima uma beleza

com a pátria mãe que nos pariu

 

1º de Abril

 

telefonaram-me

avisando-me que vinhas

na noite uma estrela

ainda brigava contra a escuridão

na rua sob patas

tombavam homens indefesos

esperei-te 20 anos

ate hoje não vieste à minha porta

 

o poeta estraçalha a bandeira

raia o sol marginal quarta feira

na Geléia Geral brasileira

o céu de abril não é de anil

nem general é myBrazyl

minha verde/amarela esperança

Portugal já vendeu para França

e coração latino balança

entre o mar do dólar do norte

e o chão dos cruzeiros do sul

o poeta esfrangalha a bandeira

raia o sol marginal sexta feira

nesta porra estrangeira e azul

que há muito índio dizia:

meu coração marçal tupã

sangra tupy& rock androll

meu sangue tupiniquim

em corpo tupinambá

samba jongo maculelê

maracatu boi bumbá

a veia de curumim

é coca cola & guaraná

 

o sangue rola no parque

o sonho ralo no tanque

nada a ver com tipo dark

e muito menos com punk

meu vício letal é baiafro

com ódio mortal de yank

 

ó baby a coisa por aqui

não mudou nada

embora sejam outras

siglas no emblema

espada continua a ser espada

poema continua a ser poema

 

Artur Gomes

poemas dos livros Couro Cru & Carne Viva – 1987  e  Pátria A(r)mada

Editora Desconcertos – 2022

leia mais no blog

Por Onde Andará Macunaíma? 

https://arturkabrunco.blogspot.com/

   

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