Balbúrdia PoÉtica
Artur Gomes 53 Anos de Poesia
Dia 3 julho 2026 – 18:30h
4º Festival Gastronômio
São Fidélis-RJ
Roteiro
manifesto anti-barbárie
com os dentes cravados na memória
1
Magnólia Faria e Ronaldo Barcelos
apresentam Artur Gomes e anunciam os participantes: Geraldo Evangelista(Chocolate),
Aline Reis. Valdemy Braga, Ana Rita Gonçalves e Adriana Porto, que
se posicionam na primeira fila.
1
Artur
Gomes
*
o delírio
é a lira
do poeta
se o
poeta não delira
sua lira
não concreta
*
nesta
cidade/poema
ganhei
prêmio com música
em mil
novecentos e setenta e quatro
com meu
parceiro Ciranda
um fidelense arretado
em nossas
Baladas Pros Mortais
um
violeiro sagrado
em
rodas de Boi-Pintadinho
levei
muita gente ao Torquato
em
marcantes semanas culturais
com
teatro poesia cinema
entre
afetos amizades carinho
nesta
cidade/poema
com o
nosso Caminho de Paz
abrimos novos caminhos
*
Falo
sobre o projeto Balbúrdia PoÉtica, sobre a minha relação com São Fidélis, faço
uma homenagem a memória de Mauri Simão, Fidélis Pereira e Antônio Roberto
Fernandes e falo sobre minha parceria com Paulo Ciranda, responsável por essa
travessia que tenho com a cidade iniciada em 1974. No 4º Festival de Música de
São Fidélis.
*
Convido
para o palco: Ronaldo Barcelos, Geraldo Evangelista(Chocolate), Aline Reis e
Valdemy Braga. Ana Rita Gonçalves e Adriana Porto
ê fome
negra incessante
febre
voraz gigante
e terra
de tanta cruz!
onde se
deu primeira missa
índio
rima com carniça
no pasto
pros urubus
*
terceiro
mundo
sonho
rola no parque
sangue
ralo no tanque
nada a
ver com tipo dark
muito
menos com punk
meu vício
letal é baiafro
com ódio
mortal de yanke
*
anti/lírica
eu não
sou zen
muito
menos zhô
nem tão
pouco zapa
nem ando
na contra capa
do teu
disquinho digital
não
alinho pela esquerda
nem à
direita do fonema
vôo no
centro/viagem
olho
rasante/miragem
veia
pulsante/poema
*
Jura
Secreta 53
sagaraNAgens
fulinaímicas
guima
meu
mestre
guima
em mil
perdões eu vos peço
por esta
obra encarnada
na carne
cabra da peste
da Hygia
Ferreira bem casta
aqui nas
bandas do leste
a fome de
carne é madrasta
ave
palavra profana
cabala
que vos fazia
veredas
em mais Sagaranas
a Morte
em Vidas/Severinas
tal qual
antropofagia
teu
grande Sertão vou cumer
nem João
Cabral Severino
nem
Virgulino de matraca
nem meu
padrinho de pia
me
ensinou usar faca
ou da
palavra o fazer
a
ferramenta que afino
roubei do
mestre Drummundo
que o diabo GiraMundo
é o Narciso do meu Ser
*
Falo
sobre as características do projeto, e em quais formatos podem ser executados
*
3
não sou
iluminista nem pretender
eu quero o cravo e a rosa
cumer o verso e a prosa
devorar a lírica a métrica
a carne da musa
seja branca negra amarela
vermelha verde ou cafuza
eu sou do mato
curupira carrapato
sou da febre sou dos ossos
sou da Lira do Delírio
São Virgílio é o meu sócio
Pernambuco Amaralina
vida breve ou sempre vida/severina
sendo mulher ou só menina
que sendo santa prostituta
ou cafetina devorar é minha sina
e profanar é o meu negócio
*
Jura
secreta 18
te beijo
vestida de nua
somente a
lua te espelha
nesta
lagoa vermelha
porto
alegre caís do porto
barcos
navios no teu corpo
os peixes
brincam no teu cio
nus teus
seios minhas mãos
as rendas
finas que vestias
sobre os
teus pelos ficção
todos os
laços dos tecidos
aquela
cor do teu vestido
a pura
pele agora é roupa
o sabor
da tua língua
o batom
da tua boca
tudo
antes só promessa
agora
hóstia entre os meus dentes
e para
espanto dos decentes
te levo
ao ato consagrado
se te
despir for só pecado
é só
pecar que me interessa
*
*
4
Alice
para
Alice Melo Monteiro Gomes
A música
está no bico dos pássaros
na pétala
da lamparina
no
caracol dos teus cabelos
no
movimento dos músculos
no m das
tuas mãos
nada mais
sagrado
do que
teus olhos acesos
para me
iluminar na escuridão
*
Pátria
A(r)mada
Deus não
joga dados
mas a
gente lança
sem nem
mesmo saber se alcança
o
número que se quer
mas
como me disse mallarmè :
- vida
não é lance de dedos
A
vida é lança de dardos
Deus
não arde no fogo
mas eu
ardo
*
Bolero
Blue
beber
desse conhac em tua boca
para
matar a febre nas entranhas
entre
dentes - indecente é a forma
que te
como bebo ou calo
e se não
falo quando quero
na balada
ou no bolero
não é por
falta de desejo
é que a
fome desse beijo
furta
qualquer palavra presa
como caça
indefesa
dentro da
carne que não sai
*
Falo
sobre as próximas edições da Balbúrdia, e em que cidades elas irão acontecer
*
5
Itabapoana
Pedra
Pássaro
Poema
eu nasci
concreto
na
horizontal - ereto
depois
fui me abstraindo
me
substantivando me substituindo
criando
outros e outras criaturas
em minhas
estruturas amorais do ser
eu nasci
assim e fui me associando
a outras
escritas as que foram ditas
a
outras não ditas
as
benditas as malditas
as que
disseram minhas
e a
outras que raptei de outros
pela
minha nova maneira
natural
de ter resistência a toda
qualquer
coisa que não
é
e as que
são coloco como cartas
sobre a
mesa para surpresa
de ver
que todo santo dia é dia d
*
era uma
vez um mangue
e por
onde andará Macunaíma?
na tua
carne
no teu
sangue
na medusa
no teu osso
será que
ainda existe
algum
vestígio de Macunaíma
na veia
do teu pescoço?
*
*
6
Drummundana
Itabirina : Por Onde Andará Macunaíma?
cavalgo
em tua poesia
Salgado
não sei
se em ti me afago
ou
se me afago por ti
*
fulinaimicamente
voz digo:
o meu ser
macunaímico
antropofagicamente
não tem
pudores no gesto
não
presto porque te amo
te amo
porque não presto
muito
menos travas na língua
com faca
foice navalha
decepei a
íngua
para não
morrer à míngua
*
era uma
vez um mangue
e por
onde andará Macunaíma?
na tua
carne
no teu
sangue
na medula
no teu osso
será que
ainda existe
algum
vestígio de Macunaíma
na veia
do teu pescoço?
*
jura
secreta 26
eu sou
Drummundo
e me
cofundo na matéria amorosa
posso
estar na fina flor da juventude
ou
atitude de uma rima primorosa
e até na
pele/pedra
quando me
invoco
e me
desbundo baratino
e então
provoco
um
barafundo Cabralino
e meto
letra no meu verso
estando
prosa
e vou pro
fundo
do mais
fundo
o mais
profundo
mineral
Guimarães Rosa
*
*
7
terra de santa cruz
ao batizarem-te
deram-te o nome:
posto que a tua profissão
é abrir-te em camas
dar-te em ferro
ouro prata rios
peixes minas mata
deixar que os abutres
devorem-te na carne
o derradeiro verme
salgado mar de fezes
batendo nas muralhas
do meu sangue confidente
quem botou o branco
na bandeira de alfenas
na certa se esqueceu
das orações dos penitentes
e da corda que estraçalha
com os culhões de Tiradentes
salve lindo pendão que balança
entre as pernas abertas da paz
tua nobre sifilítica herança
dos rendez-vous de impérios atrás
meu coração
é tão hipócrita que não janta
e mais imbecil que ainda canta:
ou
viram
no Ipiranga
às margens plácidas
uma bandeira arriada
num país que não levanta
só desfraldando
a bandeira tropicalha
é que a gente avacalha
com as chaves dos mistérios
dessa terra tão servil
tirania sacanagem safadeza
tudo rima uma beleza
com a pátria mãe que nos pariu
1º de Abril
telefonaram-me
avisando-me que vinhas
na noite uma estrela
ainda brigava contra a escuridão
na rua sob patas
tombavam homens indefesos
esperei-te 20 anos
ate hoje não vieste à minha porta
o poeta estraçalha a bandeira
raia o sol marginal quarta feira
na Geléia Geral brasileira
o céu de abril não é de anil
nem general é myBrazyl
minha verde/amarela esperança
Portugal já vendeu para França
e coração latino balança
entre o mar do dólar do norte
e o chão dos cruzeiros do sul
o poeta esfrangalha a bandeira
raia o sol marginal sexta feira
nesta porra estrangeira e azul
que há muito índio dizia:
meu coração marçal tupã
sangra tupy& rock androll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola & guaraná
o sangue rola no parque
o sonho ralo no tanque
nada a ver com tipo dark
e muito menos com punk
meu vício letal é baiafro
com ódio mortal de yank
ó baby a coisa por aqui
não mudou nada
embora sejam outras
siglas no emblema
espada continua a ser espada
poema continua a ser poema
Artur Gomes
poemas dos livros Couro Cru & Carne Viva – 1987 e Pátria A(r)mada
Editora Desconcertos – 2022
Por Onde Andará Macunaíma?





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