O tempo vai passando e sem poemas
eu fico sem problemas
até que do entre os peitos começam abismos
e de cada uma das mãos uma saudade.
Dos pés um espaço vazio
Estou começando a estar aprisionada
de poemas
e poemas gostam de vibrações.
Não de emoções
que são sempre excessivas e vazias,
mas vibrações
que é também o estado das emoções
antes de terem nome
e conceito.
Preciso de palavras, eu penso.
Preciso deixar falar
O rio de letras em meu corpo.
Ai tudo se completa em etapas.
Tudo se encaixa e retrai. Tudo amor.
Viviane Mosé
do livro desato
2006
O COISA RUIM
me querem manso
cordeiro
imaculado
sangrado
no festim dos canibais
me querem escravo
ordeiro
serviçal
salário apertado no bolso
cego mudo e boçal
me querem rato
acuado
rabo entre as pernas
medroso
um verme, pegajoso
mas eu sou osso
duro de roer
caroço
faca no pescoço
maremoto, tufão, furacão
mas eu sou cão
lato
mordo
arreganho os dentes
incito a revolta dos deuses
toco fogo na cidade
qual nero
devasto o lero lero
entro em campo
desempato
eu sou o que sangra
um poeta nato
Ademir Assunção
(do livro Zona Branca, 2001)
leia mais no blog
Balbúrdia PoÉtica
moinhos de vento
por tanto tempo
por tanta escrita
por tanta carta
sem respostas
nossos moinhos de vento
muito além da mesa posta
ainda trago em mim
tuas mãos
tuas coxas
tuas costas
a tua língua
entre os dentes
em ex-camas que não tivemos
em madrugadas expostas
e tua fome era tanta
em tudo o que não fizemos
nesse teu corpo de santa
naquele tempo de bestas
na caretice de bostas
Artur Gomes
Do livro O Poeta Enquanto Coisa
2020
*
Eu sonho poema
Tem quem sonha
Em preto e branco
Tem quem sonha
Videoclipe
Tem quem sonha
Filme mudo
Tem quem sonha
Tela de cinema
Eu sonho poema
Armando Liguori Junior
do livro A Poesia Está Em Tudo
2020
*
Calor dentro
Calor fora
Quarenta graus
à sombra
Assombra
Tua mão quente
sobre o seio meu
hora ígnea
ante o olhar
de Prometeu
Noélia Ribeiro
do livro Espivitada
2017
Balbúrdia PoÉtica 5
Dia 5 – Abril – 2025 – 16h
Campos VeraCidade
música teatro poesia
Academia Campista de Letras
Parque Dr. Nilo Peçanha
Jardim São Benedito
Campos dos Goytacazes-RJ
textos/poemas de:
Ademir Assunção + Paulo Leminski + Ferreira Gullar + Artur Gomes + Torquato Neto + Viviane Mosé
*
Artur Gomes
Jogo de Dadaísta
não sou iluminista/nem pretender
eu quero o cravo e a rosa
cumer o verso e a prosa
devorar a lírica a métrica
a carne da musa
seja branca/negra
amar/ela vermelha verde
ou cafusa
eu sou do mato curupira carrapato
eu sou da febre sou dos ossos
sou da lira do delírio
e virgílio é o meu sócio
pernambuco amaralina
vida leve ou sempre/vida severina
sendo mulher ou só menina
que sendo santa prostituta
ou cafetina
devorar é minha sina
profanar é o meu negócio
clique no link para ver o vídeo
https://www.youtube.com/watch?v=szABRGqMqH8
Mostra Visual Poesia Brasileira
Exposição retrospectiva
Múltiplas PoÉticas
17 Maio – 20h – na programação da Balbúrdia Poética 6 – em
Cabo Frio
com a Poesia de:
Tanussi Cardoso + Lau Siqueira + Wélcio de Toledo + Sérgio de
Castro Pinto + Tchello d´Barros + Jidduks + Ademir Assunção + Torquato Neto +
Paulo Leminski + Noélia Ribeiro + Aroldo Pereira + Jorge Ventura + Ricardo
Vieria Lima + Angel Cabeça + Luis Turiba + César Augusto de Carvalho + José
Facury + Artur Gomes
muito mais – aguardem
mais informações
- tem chá tia
- com anis
- sem anis tia
Lira Auxiliadora Lima de Castro
leia mais no Blog
Balbúrdia PoÉtica
https://fulinaimatupiniquim.blogspot.com/
Olhos de olhar pra dentro
Tinha uns olhos que não eram olhos,
eram tardes de chuva miúda
dissolvendo a cidade em espelhos,
estradas sem pressa,
trens que voltam e nunca chegam.
Os olhos dela sabiam de tudo,
das mortes pequenas nos quintais de infância,
dos tremores que moram no fundo do peito,
da poeira que dança no sol das manhãs.
Sabiam até quando ele mentia.
Olhos que pesavam o silêncio,
que liam cartas não escritas,
que ficavam parados, tão quietos,
mas sabiam voar.
E ele, que só tinha palavras tortas,
quis aprender com os olhos dela
a ver as coisas que não se dizem.
Simone Bacelar
Salvador (não lembro a data
Balbúrdia PoÉTICA 5
Dia 5 Abril 2025 – 16
música teatro poesia
Academia Campista de Letras
Parque Dr Nilo Peçanha – Jardim São Benedito – Campos dos
Goytacazes-RJ
Pois bem, o dia está chegando e eu estava tenso, preocupado
com uma resposta que aguardava, pois se ela não viesse a tempo, ou fosse
negativa, o roteiro para a Balbúrdia precisaria sofrer alterações quase aos 45
minutos do segundo tempo. Corria esse risco. Mas eis que a reposta positiva me
chegou:
Viviane Mosé me autorizou a utilizar no roteiro poemas de sua
autoria. Conheci Viviane e sua poesia, em 2002, quando ela venceu o IV
FestCampos de Poesia Falada com o poema; Receita Para Lavar Palavra Suja. Em
2002 ainda a trouxe a Campos para o projeto Terças Poéticas que era realizado
pelo SESC Campos. Feliz Dia
Ale´m dos poemas de Viviane Mosé no roteiro da Balbúrdia
PoÉtica 5 – tem poemas minha autoria mais:
Ferreira Gullar, Paulo Leminski e Torquato
neto.
Artur Gomes
Fulinaíma MultiProjetos
22 99815-1268 – zap
@fulinaima @artur.gumes
*
No epicentro do quarto,
o ninho a acasalar
dois belos pássaros alados.
Mapeiam-se os corpos nus.
Cada qual é uma ilha.
Ou faz-se de.
Remos para alcançar.
Ou pontes.
Do litoral, areia branca.
Tão branca quanto o dorso.
O peito. Os dentes.
Não a alma, essa é multicor,
prismática cachoeira
quando o sol brilha de frente.
Orvalho em todos os poros
alumia cada gota, cada grão e cada fio.
Costura feita ao contrário
arremata o arrepio.
Passo a passo,
letra a letra, nota traz nota,
o caminho e a palavra,
se completam musicalmente:
montanhas vales lagunas
espelho
coqueiro que dá banana
limoeiro que dá caju.
Amor
- um coro de querubins.
ÁLVARO GOULART
*
dança do pensamento
na escrivaninha
um livro aberto
um cinzeiro
os olhos na página
o pensamento, na mulher
uma formiga no cinzeiro
o pensamento,
na mulher e no amante
os olhos, na formiga
os dedos tamborilam
o espaço diminui
a formiga recua
os dedos avançam
a mulher, o amante
os dedos se fecham
corpos se enlaçam
os dedos se comprimem
um estalo
ele limpa os dedos
volta à leitura
Cesar Augusto de Carvalho
LEVANTE
Não desprezem
as que se doam,
Não
desprezem
as que se
rasgam,
que se quebram em
pedaços
por vulgares paixões vãs...
Pois delas lhes subirão
além das tranças das memórias
iras fugidias de redomas e bordéis
que imersas no vazio dos abandonos
se levantarão do pouco que lhes move
Sob o olor da essência da flor
que lhes renovará como mulher
José Facury Heluy
Lira Auxiliadora Lima de Castro
Camões/Lampião
(Sérgio de Castro Pinto)
1.
camões ao habitar-se
no olho cego
sentia-se íntimo,
mais interno
que o habitar-se
no olho aberto.
2.
lampião ao habitar-se
nos dois olhos
a eles dividia:
o olho aberto matava
e o outro se arrependia.
3.
camões ao habitar-se
no olho cego
polia as palavras
e usava-as absorto
como se apalpasse
e possuísse o próprio corpo.
4.
lampião ao habitar-se
no olho cego
chorava os mortos
do seu interno,
mas o olho aberto
era casto
e via no matar
um gesto beato.
5.
camões ao habitar-se
no olho aberto
via-se todo ao inverso,
(pelo lado de fora),
mas rápido se devolvia
e fechava o olho aberto
pra ser total a miopia.
6.
lampião ao habitar-se
no olho murcho
via o olho aberto
estrábico e rústico
e compreendia
o olho aberto
mais murcho
que o olho cego.
7.
camões ao habitar-se
no olho murcho
via o mundo claro
dentro do escuro
e o olho aberto
era inútil
ao habitar-se
no olho murcho.
8.
lampião
atrás dos óculos
sentia-se acrescido, somado
e era mais lampião
naqueles óculos de aro.
9.
os óculos
lhes eram binóculos
íntimos sobre a miopia
e quando os óculos tirava
lampião se decrescia:
o olho cego somava
e o aberto diminuía.
10.
camões molhava a pena
como se no tinteiro
molhasse o olho cego
e tateando, cuidadoso
saía do seu interno.
11.
(no tinteiro as palavras
em forma líquida
juntam-se uma a uma
à retina, à pupila.)
12.
camões
escrevia com o olho cego
por senti-lo mais seu
que o olho aberto
e por poder o olho cego
infiltrar-se, ir mais dentro
e externar o seu inverso.
Sérgio de Castro Pinto
obs.: poema vencedor do II FestCampos de Poesia Falada - 2000
- projeto de poesia criado em 1999 por Artur Gomes na Fundação Cultural
Jornalista Oswaldo Lima.
Caverna
me tranquei na caverna de platão
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
não vi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta e o facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei São Jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com com a pele que me cobre
Ademir Assunção
do livro Risca Faca
2021
*
Barulho
palavra
por palavra
minha úlcera
de verbos
tece aos poucos
a membrana
do silêncio
Lau Siqueira
do livro
o inventário do pêssego
2020
Momento
no espaço silencioso
do ar
o pássaro me acolhe
em seu voo
simétrico
olha em meu olhar
e me devolve
a manhã renovada
*
Natureza-morta com maçãs e laranjas (Cézanne)
: eis a paisagem
das frutas
: eis o gosto absurdo
do mel na retina
: eis o silêncio
pendurado na parede
: eis a vida
suspensa por um fio
*
O poema dentro de ti
De modo geral,
acho que devemos ler apenas
os livros que nos cortam e nos ferroam.
Kafka
O poema só serve para acender o fogo intenso do frio
que te habita.
Para te golpear como a dor do fim do amor que amas,
ou como raio a quebrar o lago que te espelha a face.
O poema só serve para deixares de bordar estrelas
e cumprires teu destino humano,
pois cabe somente a ti o teu enredo.
O poema não está nem aí para tua felicidade ou suicídio.
O poema só serve para que saias de ti, te leias e te encontres.
*
Sobre sombra e luz
para a atriz Silvia Buarque
Os olhos tristes da moça
são onça ferida mirando o Sol da dor.
Que o amor, moça, é flecha lançada ao vento.
Chão que se quebra ao Tempo.
Barco em rio seco. Adeus de pavio lento.
O amor é rosto que olha o lago sem se ver.
Fantasma de si mesmo — vulto.
É o que se dá sem se ter.
Faca a cortar em sua inutilidade de aço.
Parto que não nasce; exílio do outro e de si.
O amor, moça, é a eterna construção da pedra em flor.
É a invenção colorida do nada.
É feito cinema, moça, ilude e acalma.
Depois, é só a vida com suas águas rasas.
*
Visões
Quando criança,
o Sol queimava feito uma bola amarela
e as nuvens choravam água dentro delas.
Tudo era imensamente grande,
assim como o amor
fosse somente um rinoceronte
lambendo as lágrimas dos inocentes.
Quando criança,
o mundo era só um risco na paisagem.
A vida ainda não era dançar
diante do abismo da viagem
e a poesia não era o que nascia do espanto,
mas o encanto dos olhos do que o menino via.
Quando criança,
a rua era um país a explorar meus desejos
e o sexo, só uma diversão de dedos.
Eu era eterno — eu era para sempre —
tudo era para sempre.
Meus mortos eram para sempre.
Hoje, tudo é real e rói.
Só a criança teima em existir,
mas ela dói.
Tanussi Cardoso
*
Tanussi Cardoso
Como Se Fosse Adeus
clique no link para v(l)er o vídeo
Toga
será deus
um ser
de capa preta?
um bosta de toga
borra botas
de despachos e
amarrações
malfeitas
serpente de duas cabeças
ase fartas com migalhas
deixadas pelo capeta?
Wélcio De Toledo
do livro
tudo que não cabe no poema
2019
Balbúrdia PoÉtica 5
Dia 5 Abril 2025 16h
na Academia Campista de Letras
Parque Dr. Nilo Peçanha
Jardim São Benedito - Campos dos Goytacazes-RJ
nem ingênuo nem inocente
Marielle Presente
hoje já sei o que vai ser
ensaio com o elenco
até um novo dia amanhecer
Fulinaimagem
1
por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato
por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos
2
o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os espinhos da rosa de Noel
do livro: Juras Secretas –
Litteralux - 2018
clique no link para ver o vídeo
https://www.instagram.com/p/DHfxt75OIOJ/
Balbúrdia PoÉTICA 6
17 Maio – 2025 – 20h
Usina4 Casa das Artes
Rua Geraldo de Abreu, 4
Cabo Frio-RJ
Mostra Visual : Poesia Brasileira
42 anos vestindo poesia brasil afora
Arte do chá
ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo
ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
Paulo Leminski
leia mais no blog
https://arturgumesfulinaima.blogspot.com/
mais poesia de: Artur Gomes + José Facury + Rúbia Querubim + Lady Gumes + Federika Lispector + Irina Severina + Martinho Santafé + Artur Kabrunco + Ferreira Gullar + Mônica Braga + Marcelo Atahualpa + EuGênio Mallarmè + César Augusto de Carvalho + Celso de Alencar + Ferreira Gullar + Torquato neto +Simone Bacelar + Federico Baudelaire
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