terça-feira, 9 de abril de 2024

Balbúrdia Poética 3 - Leminski + Torquato à + de 80

O Anjo Torto

quando nasci Torquato Neto
veio ler a minha mão
tinha chegado de Teresina
com uma garrafa de cajuína
e um livro na outra mão

 

e eis o que o anjo me disse

apertando a minha mão

com um poema entre os dentes 

vá bicho
não tenha medo do inferno
seja um poeta moderno
cheire as flores do mal
que a poesia de Baudelaire
vai te salvar no final

Artur Gomes

leia mais no blog

https://arturgomesgumes.blogspot.com/




RIO DE JANERO RECEBE A BALBÚRDIA POÉTICA 3

BALBÚRDIA POÉTICA 3: BALBÚRDIA BALBÚRDIA BALBÚRDIA

A vanguarda toma conta da Poesia. Quem vem a este fausto léxico? Uma festa de Poesia, Música e Performance no Bistrô Ernesto - ao lado da Casa Cecilia Meireles - 24 de abril, a partir das 19 horas, na Lapa carioca. “Poesia é Balbúrdia”, segundo o cacique-poeta-filósofo Ailton Krenak, em seu discurso de posse na ABL, onde fez o rito de passagem como representante dos povos originários para a eternidade acadêmica.


BREVE HISTÓRICO

Balbúrdia Poética é um encontro-festa-movimento de poesia criado por Artur Gomes em 2019, cujas primeiras edições aconteceram na Taberna de Laura, em Copacabana. Nesta terceira edição pós-pandêmica a “Balbúrdia Poética 3: Leminski + Torquato à + de 80”, comemora os 80 anos de nascimento dos poetas Paulo Leminski e Torquato Neto, dois ícones transgressores que marcaram a poesia brasileira na segunda metade do Séc. XX. O encontro reúne 30 artistas com o objetivo de celebrar a memória de ambos, apresentando releituras de seus poemas, obras musicadas, performances e a Poesia Oral contemporânea dos poetas convidados. Tanto o paranaense Paulo Leminski quanto o piauiense Torquato Neto, com suas obras viscerais, intensas e provocantes, sacudiram “o coro dos contentes” e “derrubaram as estruturas” nos Anos 60-80, épocas de contestação, subversão (da linguagem, inclusive) e muita agitação cultural.


ARTISTAS CONFIRMADOS

Artur Gomes & Fil Buc - Anna Maria Fernandes - Aroldo Pereira - Carmen Moreno - Delayne Brasil Eugênia Henriques - Fernando Andrade - Fabio Pessanha - Igor Calazans - Jorge Piri - Jorge Ventura - Karla Julia - Luis Turiba - Marcela Giannini - Mônica Serpa - Paulo Leminski Neto & Claudia Leminski - Ricardo Reis - Ricardo Vieira Lima - Ronaldo Werneck - Rose Araújo - Sady Bianchin - Tanussi Cardoso - Tchello d'Barros - Telma da Costa - Toninho Vaz - Wanda Monteiro

 

LIVROS

Serão lançados os livros O Homem com a flor na boca (Poesia), do poeta Artur Gomes, e a biografia de Paulo Leminski O Bandido que sabia latim do jornalista Toninho Vaz.


O Homem com a flor na boca – poemas de Artur Gomes

De acordo com Simone Bacelar, "O Homem com a flor na boca" é uma coletânea de poemas que captura a essência da experiência humana através de uma linguagem poética marcante. Escrito pelo talentoso autor Artur Gomes @fulinaima, o livro explora temas universais cativando o leitor com sua sensibilidade e profundidade. Os textos refletem uma jornada emocional envolvente, onde cada verso é uma janela para o coração e a mente do autor, convidando o leitor a se perder nas palavras e encontrar significado em cada linha. Com uma mistura de imagens vívidas, metáforas evocativas e uma linguagem única, "O Homem com a Flor na Boca" é uma obra que ressoa com todos aqueles que buscam conexão e compreensão no mundo ao seu redor.”

Artur Gomes é poeta, ator, letrista e agitador cultural, vivendo em Campos dos Goytacazes (RJ). Está há 50 anos espalhando poesia nos mais diversos eventos pelo Brasil. Com cerca de 20 obras publicadas, destacam-se algumas mais recentes: “Juras Secretas”;O poeta enquanto coisa”; e “Pátria A(r)mada”.

 

O Bandido que sabia latim - biografia de Paulo Leminski

Paulo Leminski, chegou aos anos 80 fixando sua marca poética em trabalhos assinados nas principais revistas e jornais do país, enquanto encantava com suas biografias e impecáveis traduções de poetas universais. Este livro resgata a insólita e conturbada vida deste artista que foi hippie, letrista, publicitário, judoca, professor, tradutor, redator e vários etceteras. O jornalista Toninho Vaz, conta os dramas e vitórias do “cachorro-louco”, “Tio Lema”, “Polaco-loco-paca”, gênio, doido, ídolo e mestre que deixou muita poesia e saudade para gerações de leitores.

Toninho Vaz é jornalista, biógrafo e vive no Rio de Janeiro. Publicou as biografias de Paulo Leminski: “O bandido que sabia latim”; de Luiz Melodia: “Meu nome é ébano”; de Zé Rodrix: “O fabuloso Zé Rodrix”; de Torquato Neto: “Pra mim chega”; e do Solar da Fossa, a história da mitológica pensão de Botafogo.

 

SERVIÇO

Evento: BALBÚRDIA POE´TICA 3”

Leminski + Torquato à + de 80

Sarau Multilinguagens e microfone aberto

Horário: 19-22h

Data: 24.Abr.2024 – Quarta-feira

Local: Bistrô Ernesto – Rua da Lapa, 41. Rio de Janeiro - RJ

Realização: Fulinaima Multiprojetos, Fil Buc Produções,

Revista Bric-a-Brac, Kino3 e Poesia Plural  

Produção/Contatos: Artur Gomes (22) 9 9815-1268; Luis Turiba (21) 9 8288-1825; Tchello d’Barros (21) 9 835-1978

Entrada franca



sábado, 6 de abril de 2024

Suor & Cio - Couro Cru & Carne Viva

Suor & Cio

MVPB Edições 1985

A Poesia Liberada de Artur Gomes

 Há uma passagem em Auto do Frade, de João Cabral, que me chamou a atenção:

“-Fazem-no calar porque, certo, sua fala traz grande perigo. – Dizem que ele é perigoso mesmo falando em frutas passarinhos”.

Vislumbro aí uma espécie de definição do alto poder transgressor da poesia , do poeta, da arte em geral: deixar fluir uma energia de protesto e indignação, crítica e iluminação da existência, qualquer que seja o pretexto ou o ponto de partida.

Por exemplo - : Suor & Cio, novo poemário de Artur Gomes. Na sua primeira parte(Tecidos Sobre a Terra), temos um testemunho direto sobre as misérias e sofrimentos na região de Campos dos Goytacazes, interior fluminense. Não se canta amorosamente, as lavouras de cana de e grandes usinas, os aceiros e céus de anil. Ao contrário. Ouvimos uma fala que “traz grande perigo”, efetivamente ao denunciar – com  aspereza e às vezes até com certo rancor – a situação histórico-social, bruta e feroz, selvagem e primitiva, da exploração do homem no contexto do latifúndio e da monocultura.


 “usina

mói a cana

o caldo e o bagaço

usina

mói o braço

a carne o osso

 

Mas esta poesia dura, cortante e aguda, mantém igualmente a sua força de transgressão – continua revolucionária e perigosa – mesmo quando tematiza (principalmente em Tecidos Sobre A Pele, segunda parte do livro), as frutas, ou prazer sexual, os seios, o carnaval, o mar, e os impulsos eróticos. Por detrás dos elementos bucólicos e paradisíacos (só nas aparências, bem entendido), eis que explode o censurado o reprimido, o que não tem vergonha nem nunca terá:

 

“arando o vale das coxas

com o caule da minha espada

no pomar das tuas pernas

eu plano a língua molhada”

 

Por isso, frequentemente os poemas se debruçam sobre o próprio ofício do poeta, e sobre o próprio sentido do fazer artísticos. Ofício de artista, experiência de poeta: presença e risco e da violação das normas injustas: carnavalizando, desbundando a troup-sex, infernizando o céu e santificando a boca do inferno, denunciando o rufo dos chicotes, opondo-se aos donos da vida que controlam, o saldo, o lucro e o tesão.

Os versos de Artur Gomes querem ser lidos, declamados, afixados em cartazes, desenhados em camisas. E vieram para ficar nas memórias das bibliotecas da nossa gente, apesar do suor e do cio, graças ao suor e ao cio:

 

“com um prazer de fera

e um punhal de amante”.

 

Uilcon  Pereira

são paulo, julho, 1985 






 QUASE 

 

O poema brota da sombra da escuridão.

Dessa luz obscura do cotidiano

que nos toca de raspão

feito um vento obsceno.

Que a vida é só um risco

no nosso corpo

diante da imensidão do universo

ou da imensidão da Morte,

maior que a do céu e a do mar.

O poema se escreve sobre o que não se vê.

Não vemos a árvore a nossa frente,

nem a Lua,

nem o corpo assassinado,

nem o amor que beijamos;

vemos o que criamos sobre o real.

Nasce do símbolo e se alimenta dele.

Canibal.

O poema pendura a vida na língua.

Brota do tédio.

Uma espécie de melancolia. De esperança.

Ou quase.

 

O poema é sempre um quase.

 

(Tanussi Cardoso)

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https://artecult.com/sextas-poeticas-confira-o-poema-inedito-de-tanussi-cardoso-quase-e-suas-dicas-da-semana/


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quinta-feira, 4 de abril de 2024

contranarciso

                     Paulo Leminski – Presente 



embarcando na boa viagem

 

embarcando na boa viagem

Ainda morava em Itabira em 1987 quando Gabriel de La Puente me convidou para o Seminário – Brasil: Uma Cultura Em Questão, que foi realizado naquele mesmo ano, cidade paulistana de Batatais.

Havia conhecido poucos meses atrás, em São Paulo, Carlos Careqa e Hélio Letes em um culto da Igreja da Salvação pela Graça, na Casa de Cultura Oswald de Andrade.


Em Batatais, Gabriel escafedeu-se, se intrometeu com uma noiva e teve que fugir da cidade. Ficamos eu, Uilcon Pereira, Ricardo Prereira Lima, Guilherme Almeida Prado e Artur Gomes, entregues a decoração dos contos eróticos de Adalgisa, a ninfomaníaca mineira, que apareceu por Batatais, numa noite de trovoadas nos recintos do Copo Sujo, o bar mais frequentado da cidade.


Quando Batatais já era uma pedra que ficou no meio do caminho, me mandei pra Curitiba, e por lá foram 45 dias de convivência com o Hélio e com ele aprendendo as utilidades das coisas inúteis e aí pouco tempo depois logo em 1990 já morando em Ouro Preto me torno o Mestre-Sala da Mocidade Independente de Padre Olivácio – A Escola de Samba Oculta No Inconsciente Coletivo.

Federico Baudelaire
https://fulinaimagemfreudelerico.blogspot.com/


terça-feira, 2 de abril de 2024

verão - Ronaldo Werneck - Balbúrdia Poética 3

                         verão

 

ah havia tanto

tanto joyce

no original reler

pound os gregos

os provençais

havia tanto

tanto tempo perdido

 

são duas horas

duas da tarde

o mar se esfrega

azul l´azur blue blau

por toda a costa

ocidental

 

é verão e as mulheres

espraiam belas

acidentais

suas costas

a areia as coxas

o colo reluzindo

 

é verão e são belas

duas horas de mar

e tarde o tempo

perdido

os gregos

os provençais

 

o sol sol solapando

os olhos trinta

trinta anos

de pão & pound

 

é verão e são

comoção belas

as mulheres

 

mas de que vale o poema

ante a mulher de ipanema?

 

Ronaldo Werneck

                                                  Rio, 1973


quarta-feira, 20 de março de 2024

O Homem Com A Flor Na Boca


Poética, política e memória

 Escrever prefácio para um livro de Artur Gomes é um desafio prazeroso. Desafiante é mergulhar no universo imagético e político que sempre compôs sua poética. Este O Homem Com A Flor Na Boca : Deus Não Joga Dados acrescenta o substrato memorialístico ao seu repertório formando a tríade que sustenta o livro temática e formalmente. Meu primeiro contato com a poesia de Artur se deu nos anos 80 por intermédio de seu livro Suor & Cio, obra cuja temática estava em consonância com as reflexões suscitadas pelas “comemorações” do centenário da Abolição da Escravatura em 1988. A partir daí, acompanhei suas criações tanto impressas quanto performáticas, pois Artur não é poeta apenas de livros e silêncios das salas de estares, livrarias e bibliotecas, mas também dos bares, ruas e praças que são do poeta como o céu é do condor.

 Poucos poetas contemporâneos expressam tão bem as principais bandeiras do Modernismo de 22 quanto esse vate pós-moderno. Sua poesia é política, antropofágica, nonsense, musical, polifônica e sobretudo intertextual, além de dotada de uma brasilidade corrosiva, avessa ao nacionalismo acrítico que se tem espraiado pela ex-terra de “Santa cruz”.

 Neste livro estão todas essas marcas do poeta às quais acrescento o caráter memorialístico. Nele, Artur não apenas rememora antigos poemas por meio de alusões, paráfrases e paródias como traz para seus versos passagens assumidamente biográficas, se apropriando, em alguns momentos, do gênero diário.

 Estão contidos nessas memórias seus vários heterônimos: Gigi Mocidade, Federico Baudelaire, EuGênio Mallarmè, Federika Bezerra, Federika Lispector. Diferente do que ocorre com o poeta português Fernando Pessoa, a heteronímia em Artur não se manifesta menos na autoria do que no tecido ficcional. Suas diferentes personas emergem dos poemas para a realidade das redes sociais, interagem entre si, com o poeta e os leitores.

 É Gigi Mocidade, por exemplo, que carrega a bandeira do espírito subversivo com seu grito “Irreverência ou morte”, já nas primeiras páginas do livro, e a epígrafe de Federico Baudelaire “escrevo para não morrer antes da morte” anuncia a intenção memorialística. Sócrates, no seu diálogo com Fedro na obra de Platão, argumenta que a escrita seria a morte da memória, mas o que seria de todo o repertório literário não fosse essa invenção humana? Quais mentes suportariam tantos signos produtores de imagens cujos sentidos transcendem às vezes a razão? A escrita não se tornou a morte da memória, mas impossibilitou a morte dos poetas eternizados nas páginas dos livros e memórias dos leitores.

 

poema 10

meus caninos

já foram místicos

simbolistas

sócio políticos

sensuais eróticos

mordendo alguma história

agora estão famintos

cravados na memória

 

Nesses oito versos, o autor nos apresenta metalinguisticamente seu percurso poético até este livro que não é uma obra dedicada ao passado. O presente político do Brasil (des) norteia o poeta que não deixa de atacar com sua lira de peçonha os problemas que nunca deixaram de afligir estas paragens desde o suposto grito de Cabral.

 

poema 12

 

tem algo de errado

nessas estatísticas de mortes

dessa pandemia

multipliquem  60.000 X 10

e ainda não vai ser exato

o número de cadáveres

empilhados nos campos de concentração

que dá um nome ao   país

que ainda nem era uma nação

 

A verve surrealista do poeta se manifesta principalmente nos poemas narrativos protagonizados por personagens intertextuais como “macabea” (alusão evidente à conhecida protagonista de A hora da estrela de Clarice Lispector) e alter egos – lady gumes – parodísticos do próprio autor.

 

Em FULINAIMAGEM 14 o tom  de diário se instaura com inscrição de data do acontecimento rememorado e transborda na escrita de si em que se revela o papel que a poesia e o teatro desempenham na escritura de seu trajeto como autor: “a minha relação poesia teatro poesia é visceral vital para o que escrevo como quem encena  a necessidade do corpo como expressão”. Artur Gomes, este homem com a flor na boca, anda a espalhar o veneno agridoce de sua poesia, numa obra em que não há fronteiras entre o artista, o cidadão, o personagem, o eu poético, a obra. Seu livro não é um objeto, mas um produto interno e nada bruto. A obra é sempre muito maior que o livro, pois este, matéria assim como o homem, finda. A obra, esse totem que se pode cultuar no altar da memória, está sempre presente. E é disso que o poeta fala: do tempo presente, do homem presente, da vida presente. Parafraseando Drummond, com O Homem Com A Flor Na Boca, “não nos afastemos, não nos afastemos muito”, vamos de mãos dadas com a poesia de Artur.

 

Adriano Carlos Moura

Professor de Literatura – IFFluminense, Campos dos Goytacazes-RJ –

disponível em

www.editorapenalux.com.br/loja

na carne da palavra

poema 10   meus caninos já foram místicos simbolistas sócio políticos sensuais eróticos mordendo alguma história agora estão famintos cravad...